sábado, 8 de maio de 2010

MANIFESTO DE UM REAL:

“A história de todas as sociedades que já existiram é a história da luta de classes.”

Karl Marx & Frederic Engels, O Manifesto Comunista. Página 9.

Apenas cerca 10% dos brasileiros freqüentam o ensino superior, cursos de mestrado e doutorado. São exatamente 5,874 milhões de estudantes segundo pesquisa feita e pelo IBGE. E 75,3 % das instituições de Ensino Superior do país são privadas e dentro deste número 72,2% (fonte: Brunner e Seec/MEC-Brasil) não são Universidades, pois, para tanto, exige-se cobertura das áreas do conhecimento (cursos ou carreiras em exatas, biomédicas, humanas e sociais). O que constatamos é como este espaço público é elitizado. O acesso à Universidade é restrito. Diferente de outros países latino-americanos como Argentina, Chile e México que já não submetem os estudantes a uma prova de vestibular. E o que dizer da permanência na Universidade? Se para entrar é precisar passar pela peneira, para ficar é preciso passar pelo ralador. Na Bahia, uma política de alfabetização vem sendo implementada, mas nenhuma política barateia o preço dos livros. Nas escolas públicas, o número de repetentes diminuiu desde que a média é cinco e acertar metade da prova de quatro questões, feita em dupla, é questão de apenas um dos dois saber, e assim seguem ambos para futuramente fazer o tal vestibular.


Agora está mais fácil entrar, pois o número de vagas foi aumentado, a exigência dos patrões; do mercado de trabalho aumentou. Agora está mais difícil arrumar um emprego, principalmente em Salvador. Agora está sendo muito cobrado um diploma e daqui a pouco ter apenas um diploma será pouco. Para onde vamos? Penso, sobretudo, nos restantes brasileiros, nos 90% que não terão diploma algum. Lembro dos meus amigos, conto dez e constato a estatística, pois somente eu estou na Universidade. E a dificuldade é justamente esta. O programa de bolsas não atende a mim, pois não atende a todos. A segregação acadêmica supera-se e acontece tanto de dentro pra fora quanto de dentro pra dentro. A cara do estudante da UFBA ainda não é a cara do estudante de cota. O corpo docente tende a manter o padrão. Insinuações a parte, voltemos às informações. No estado de Minas Gerais, existem oito universidades federais,entre Belo Horizonte, Ouro Preto, Viçosa, Vales do Jequitinhonha, Mucuri, Lavras, Uberlândia, Juiz de Fora e Itajubá. Na Bahia, efetivamente, só a UFBA, pois a recente Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB) ainda não formou nenhuma turma e a Universidade Federal do Vale do São Francisco(UNIVASF) também não. E ainda têm mais dois campi no interior do estado, filiados a UFBA, que muito mal funcionam, nas cidades de Barreiras e Vitória da Conquista, a mais de 600 km da capital. Penso nas pessoas que antes, e ainda hoje, precisam vir à capital estudar. A Residência Universitária têm não mais do que quatrocentas vagas. Imagino como é em Minas Gerais…


A assistência estudantil é precária na Bahia. Não é oferecido nenhum transporte entre os campi da UFBA, tendo em vista que eles são espalhados por pontos distintos da cidade, seria de fundamental importância esse serviço. Mas isso não é o pior, pois podemos caminhar meia hora ou subir mais de duzentos degraus, só não dá pra ficar sem comer. Há vinte anos, o restaurante universitário foi fechado para no local ser construída a Faculdade de Comunicação (FACOM), informação que quase ninguém sabe, salvo os mais famintos. Havia até então só um restaurante feito para atender aos residentes, perfeito, porém, e os outros tantos mil estudantes? Entraram no primeiro semestre de 2010 mais 3,5 mil estudantes e esses números crescerão. Semestre a semestre entrarão outros para engordar o corpo discente. Corpo este que têm olhos e vê tais problemas, têm ouvidos e escuta rumores, tem nariz e sente o mal cheiro, tem boca e grita por socorro e tem cabeça que permanentemente tem que pensar. Penso que um preço justo para um restaurante universitário é o de UM REAL. Em Belém do Pará é este preço, em Teresina, Piauí, mais barato, apenas noventa centavos. No Sudeste, este preço sobe um real, na USP é um e noventa, mas na UFBA um prato de comida no R.U custa nada mais nada menos do que 5,50! Na Universidade Estadual de Feira de Santana eu comeria de segunda a sexta e ainda sobrariam cinqüenta centavos para duas paçocas. Contudo, não vamos fazer comparações entre instituições de instância distintas. O descaso com Estaduais creio que é ainda maior. Na UERJ nem há restaurante universitário!


Somos a classe estudantil, somos o futuro do Brasil! Poder ser clichê ou parecer palavra de ordem, e que seja. As classes dominantes dominam também os meios de produção do conhecimento, ou melhor, legitimam e prestigiam determinadas formas do Saber. Serei para sempre um estudante e penso em meus filhos e nos filhos de meus amigos que não terão diploma. Será que eles vão ter o acesso e a permanência na Universidade garantidos? No momento a luta é pela democratização de um espaço, pela popularização do Restaurante Universitário da UFBA. Ao preço de UM REAL para os estudantes que tem fome - uma fome que vai além da vontade de comer. E essa luta vai além, nossa luta vai além. A sociedade necessita de igualdade e esta, de fato, só pode começar com a democratização do majoritário espaço do saber.

Denisson Palumbo, estudante de Letras Vernáculas.

2 comentários:

Heitor Reis de Oliveira disse...

Denilson Palumbo,vc me emociona com suas belas palavras,viajei no seu texto,continue assim,como bom menino que vc é,mas não converse muito com o cachorro......percebi que ele não é muito seu amigo.

Rafael Figueiredo disse...

...e os estudantes que têm rejeição ao glútem e à lactose, e os estudantes que são vegetarianos?

RU a 1 real e com opção vegetariana!